Impedidas por decisão liminar de realizar determinados atos de mobilização, cuidadoras de creche de Brumado adotaram uma estratégia alternativa e compareceram, no último dia 24 de abril, à inauguração da Unidade Básica de Saúde (UBS) José Clemente, durante o horário de almoço. No local, cobraram publicamente o cumprimento da Lei Federal nº 15.326/2026, que reconhece como indissociáveis as funções de cuidar e educar na educação infantil.
A manifestação ocorreu na presença de autoridades estaduais, incluindo o governador Jerônimo Rodrigues, o senador Jaques Wagner e o ministro Rui Costa, além de representantes da gestão municipal.
Cobrança direta e reação do Executivo
Segundo relatos das cuidadoras, o objetivo foi aproveitar um evento institucional para dar visibilidade à pauta diante de autoridades de diferentes esferas. Durante o discurso oficial, no entanto, o prefeito Fabrício Abrantes teria evitado o diálogo com a categoria, virando-se de costas no momento em que as profissionais buscavam atenção para a reivindicação.
A cena, registrada por participantes, foi interpretada pelas cuidadoras como um sinal de distanciamento e recusa em tratar do tema de forma aberta, mesmo diante da repercussão crescente do movimento.
Presença de autoridades municipais
A inauguração contou ainda com a presença de integrantes do alto escalão da administração municipal, entre eles a secretária Ana Cristina e outros membros da estrutura administrativa. A concentração de autoridades reforçou a escolha do evento como espaço de cobrança pública por parte da categoria.
Denúncias de retaliação ganham força
Três dias após o ato, novas denúncias surgiram. De acordo com as cuidadoras, nesta segunda-feira (27), profissionais da educação — incluindo as próprias manifestantes — teriam ficado sem acesso ao almoço fornecido nas unidades, situação que, segundo elas, não é habitual.
Para o grupo, o episódio representa a concretização de uma “ameaça velada” anteriormente percebida e passa a ser interpretado como possível retaliação à mobilização.
Especialistas em gestão educacional alertam que, caso confirmadas, medidas dessa natureza podem comprometer o ambiente escolar e afetar diretamente a qualidade do serviço prestado, além de tensionar ainda mais a relação entre servidores e administração pública.
Direito à educação e valorização profissional
Do ponto de vista pedagógico, a reivindicação das cuidadoras está alinhada a princípios consolidados da educação infantil no Brasil, que reconhecem o cuidado como parte integrante do processo educativo. A Lei Federal nº 15.326/2026 reforça esse entendimento ao estabelecer que não há separação entre cuidar e educar nas práticas desenvolvidas com crianças.
Nesse contexto, o enquadramento funcional defendido pela categoria não é apenas uma pauta trabalhista, mas também uma discussão sobre a qualidade da educação oferecida nas creches municipais.
Clima de tensão e continuidade da mobilização
O episódio na UBS e as denúncias subsequentes ampliaram o clima de tensão em torno do tema. Mesmo diante de decisões judiciais restritivas e da ausência de diálogo direto com o Executivo, as cuidadoras afirmam que continuarão buscando formas legais e pacíficas de reivindicação.
A mobilização, que já vinha sendo marcada por presença constante em sessões da Câmara e atuação nas redes sociais, ganha novos contornos ao ocupar também eventos públicos institucionais.
Impasse permanece
Até o momento, não houve manifestação oficial do Executivo municipal sobre os episódios relatados após a inauguração. O impasse em torno da aplicação da legislação federal segue sem solução, enquanto a categoria intensifica sua articulação e amplia a visibilidade da pauta.
Para as cuidadoras, a luta permanece centrada em um ponto: o cumprimento da lei. Já para a gestão municipal, o silêncio recente indica que o tema ainda deverá se estender no campo político, administrativo e, possivelmente, judicial.
